CAPITÚLO 1: A CHEGADA E O PROBLEMA QUE ELE NÃO SABIA QUE TINHA
O universo tem 13,8 bilhões de anos. Durante a maior parte desse tempo, não aconteceu nada particularmente interessante para desenvolvedores de software — em parte porque eles ainda não existiam, e em parte porque, mesmo que existissem, provavelmente estariam tentando fazer um loop funcionar em condições adversas.
Mas em 14 de agosto de 2026, numa sexta-feira de inverno em Curitiba, algo aconteceu.
Dev — vamos chamá-lo assim, porque esse é o tipo de nome que funciona para propósitos narrativos e porque o crachá dele ia mostrar só isso mesmo — chegou ao Expotrade às 8h17. A credencial foi scaneada, o app vibrou, e havia um pato de pelúcia na mesa de credenciamento: amarelo, sereno, com a expressão de quem já explicou o mesmo bug para quatrocentas pessoas e desenvolveu paz interior com isso.
Dev quis aquele pato imediatamente. Foi informado, com gentileza, que os patos não estavam à venda e também não estavam sendo distribuídos gratuitamente — eles precisavam ser ganhos. No Codecon Game Show. Dev anotou mentalmente. Era um objetivo.
O Codecon Summit 2026 tinha quatro palcos. Isso é relevante porque quatro palcos significam que, em qualquer momento, você está perdendo três palestras enquanto assiste a uma. Não é um problema de design — é uma propriedade fundamental da física clássica que organizadores de conferências aprenderam a aceitar com elegância. Dev tinha marcado seis palestras no app. Ia conseguir assistir quatro. Isso, nas circunstâncias, era uma vitória.
A primeira foi às 10h30 na Plenária. Quinze minutos depois, Dev estava com o bloco de papel aberto — o que havia colocado na mochila por impulso e nunca usava — anotando coisas. Não porque a palestra fosse densa demais. Mas porque algumas ideias, quando formuladas com precisão suficiente, criam o desconforto específico de fazer você perceber que o problema que você achava que tinha não era o problema que você tinha. Isso custa caro em terapia. Em conferências boas, é gratuito.
No corredor entre os palcos havia café, água, e o tipo de conversa técnica que transformaria qualquer gravador aleatório numa fonte inesgotável de conteúdo para podcast. Dev estava com um copo de café quando ouviu uma discussão sobre arquitetura que o fez virar para participar antes de perceber que não conhecia nenhuma das três pessoas envolvidas. Disse alguma coisa sobre o assunto. As três pessoas concordaram. A conversa durou vinte minutos.
Isso é Codecon — não os palcos, mas o corredor. A palestra você pode assistir depois. A conversa, não.
Foi no corredor também que Dev encontrou Bartolomeu.
Bartolomeu é um panda de pelúcia que habita o evento com uma autoridade difícil de explicar racionalmente. Não tem crachá. Não está na programação. Mas está lá, e as pessoas param, e tiram foto, e seguem em frente levemente melhores do que antes. Dev tirou a foto. Seguiu em frente.
CAPITÚLO 2: A IMPROBABILIDADE DO PATO
A segunda palestra foi 16h. Há palestrantes bons porque dominam o assunto, e palestrantes bons porque sabem comunicar. Essa palestrante pertencia à categoria menos comum: os que fazem você sentir que o assunto estava esperando ser explicado exatamente assim, e que todas as versões anteriores eram rascunhos. Dev saiu com uma ideia anotada que reorganizou silenciosamente uma suposição que ele carregava há dois anos — o tipo de coisa que só aparece depois, quando você está resolvendo um problema completamente diferente e pensa espera, isso aqui se aplica.
Entre uma palestra e outra, rolava o Codecon Game Show.
O formato envolve passa ou repassa, Show do Milhão, e jogos de criatividade e improviso. A cada rodada, algumas pessoas são chamadas ao palco. Quem vence, ganha um pato de pelúcia. A probabilidade de ser chamado, vencer, e sair com um pato é suficientemente baixa para que os matemáticos prefiram não calculá-la publicamente. O Motor de Improbabilidade Infinita, se existisse e fosse consultado sobre o assunto, provavelmente diria algo como "possível, mas prefiro não me comprometer".
Dev levantou a mão todas as vezes que foi possível. Foi chamado. Respondeu uma pergunta sobre a qual tinha certeza absoluta. Estava errado. Foi chamado de novo. Dessa vez acertou — o que, considerando as probabilidades envolvidas, era estatisticamente comparável a 42: uma resposta que só faz sentido se você aceitar que o universo funciona de formas que a lógica convencional não cobre completamente.
O pato foi entregue com solenidade. Dev voltou para o lugar segurando-o com a discrição de alguém que claramente não estava com discrição nenhuma.
CAPITÚLO 3: A BARATA DOURADA E O FIM DO COMEÇO
No segundo dia, aconteceu a Barata Dourada.
A Barata Dourada é uma barata de plástico dourada escondida em algum lugar do evento. Ninguém anuncia onde. Ninguém confirma quantas existem. A maioria das pessoas passa os dois dias sem encontrar nenhuma — e só descobre que ela existia quando vê alguém segurando uma com uma expressão que mistura incredulidade e satisfação irracional.
Dev encontrou a dele num canto do Sandbox que não estava no roteiro de ninguém. A levou até o estande de troca, recebeu uma raspadinha, raspou com uma moeda que havia no fundo da mochila — o tipo de moeda que existe especificamente para esse propósito e nenhum outro — e revelou um código embaixo da película prateada. Digitou no app. O app reagiu de um jeito que sugeria que aquilo não acontecia com frequência.
Às 17h45, quando a programação terminou e as pessoas começaram a se dispersar em grupos para jantar, Dev parou por um instante no corredor vazio. Na mochila: o bloco de papel com três páginas de anotações e o pato de pelúcia.
O app mostrava 21 badges de 47. Havia outros 26 que ele não tinha conseguido — palestras perdidas, conversas que não aconteceram, partes do evento que existiram sem ele.
Numa leitura pessimista: uma lista de fracassos.
Numa leitura mais precisa: um motivo.
Até mais, e obrigado pelos peixes — ou, neste caso, pelos patos.
Codecon Summit 2026 14 e 15 de agosto · Expotrade · Curitiba
Garanta seu ingresso. Os badges não vão desbloquear a si mesmos.