2 de jul. de 2026

Gabriel Nunes

Não sei bem por que esse tema me veio à cabeça agora. Talvez seja porque a IA passou a fazer design e está deixando as coisas cada vez mais feias (ou cada vez mais iguais). O fato é que comecei a pensar sobre como a Codecon chegou até aqui.
Este ano completamos 7 anos. Antes da Codecon eu tive uma agência (a teken), e hoje percebo que já fazia por lá muita coisa parecida com o que fazemos na Codecon. Principalmente no sentido de levar a vida menos a sério.
Já ouvi vários relatos de pessoas que conheceram a teken e achavam que era uma empresa grande e que tinham vontade de trabalhar lá... o mesmo acontece na Codecon hoje em dia. Só temos 4 pessoas na equipe, mas temos um alcance absurdo.
E isso me fez lembrar de várias marcas e empresas que também fazem isso (só que gigantes).
A Red Bull, por exemplo. Provavelmente você lembra dela pelos comerciais do "Red Bull te dá asaaaaas", ou por ter patrocinado aquele salto de um cara de skate descendo um prédio que parece uma rampa. Querendo ou não, o marketing deles foge completamente do tradicional e gruda na memória, porque a marca sempre aparece em momentos divertidos e descolados.
Recentemente, no Escovando Bits, falamos sobre a "esmerdelhização do SaaS": com o avanço da IA, ficou muito mais fácil criar uma cópia de qualquer ferramenta (só que pior e mais bugada) e vender pras pessoas como se fosse algo maravilhoso.
O que provavelmente vai acontecer é que mais de 95% desses microSaaS vão acabar morrendo, porque são coisas descartáveis. Assim que surgir uma opção melhor, o cliente migra sem pensar duas vezes.
Eu tento fugir do modelo de SaaS pois entendo que é um trabalho muito árduo, não só de construir, mas de conseguir constantemente novos clientes e continuar divulgando e melhorando o produto. Mas tem um motivo mais profundo do que preguiça: SaaS, hoje, é a coisa mais fácil de copiar que existe. Se o seu negócio é só o produto, então o seu negócio é só uma questão de tempo até alguém clonar com IA, cobrar metade e te deixar correndo atrás.
E é aqui que eu chego no tal do HaaS.
Porque a graça é que humor é exatamente a coisa que você não consegue vender como serviço. Não tem API de carisma. Você não consegue assinar um plano mensal de "ser uma marca que as pessoas gostam". É justamente por isso que isso virou o ativo mais valioso que uma empresa pode ter num mundo onde todo o resto virou commodity.
Se a IA consegue copiar qualquer funcionalidade, qualquer layout, qualquer landing page, então funcionalidade parou de ser diferencial. O que sobra? Sobra a única coisa que não cabe num prompt: como as pessoas se sentem perto da sua marca. A piada interna que só quem é da comunidade entende. O evento onde a galera ri junto. O jeito de escrever um e-mail que parece que tem gente do outro lado, não um fluxo de automação.
Criamos um canal no Youtube na Codecon justamente pra mostrar como programação também é engraçado e em pouco mais de 1 ano já atingimos mais de 60 mil inscritos. A Codecon não chegou aos 7 anos porque tinha o melhor "produto". Chegou porque construiu um lugar onde as pessoas querem estar. Está nas pessoas, na cultura, nas piadas que a gente acumulou ao longo do caminho. Alguém pode copiar nosso site numa tarde. Não consegue copiar sete anos de comunidade rindo das mesmas coisas.
A RedBull não vende energético. Vende a sensação de estar perto de algo radical e divertido... o energético é só o suvenir que você leva pra casa. Por isso eles podem cobrar o que cobram por uma latinha de gosto duvidoso: você não está pagando pela bebida, está pagando pelo mundo que eles construíram em volta dela.
Não estou dizendo pra ninguém parar de construir produto. Estou dizendo que, se a parte fácil agora é construir o produto, então a parte difícil (e que importa) é tudo aquilo em volta. A camada que faz a pessoa lembrar de você, defender você, voltar pra você mesmo quando aparece uma alternativa "melhor e mais barata".
Num mundo onde tudo vai ficar igual, feio e copiável, a sua melhor defesa é ser a única coisa que a IA não consegue gerar: alguém de quem as pessoas gostam.
